Eu e a Covid!

Experiência pessoal de um paciente GRAVE do Coronavírus

Antes que comece a ler, já queria deixar bem claro que foi bem difícil construir esse relato. Foram momentos tenebrosos que passei na luta contra a Covid. Minha mãe já tinha enfrentado a versão mais grave da doença e também conseguiu suportar o Coronavírus. Infelizmente perdi meu tio.

Ainda assim, fiz questão de escrevê-lo para sempre lembrar que a vida é uma neblina, para quando o cotidiano dos problemas, o excesso de autocobrança, quando a mesquinhez e ansiedade me abaterem, lembrar que a vida é maravilhosa e aproveitar o melhor que ela tem para oferecer. Sempre trazer a memória que eu poderia não estar aqui agora!

Também acredito que o relato é útil por descrever uma experiência que pode ser usada nos enfrentamentos futuros, caso ocorra com algum leitor.

 São nas adversidades que somos levamos a valorizar o que realmente importa e crescer como pessoa. Como diz o ditado:” o que não nos mata, só nos torna mais forte!”

Como peguei Covid?

Depois de já ter adiado uma viagem de canoagem em 2020, por conta da pandemia, decidimos erroneamente, fazer a viagem em maio de 2021 para o Jalapão-TO e Alto Paraíso-GO. Foram 5.000 km rodados de carro, éramos cinco canoístas e ficaríamos em lugares ermos e pouco frequentado. Apesar de não estarmos em aglomerações, subestimamos muito o contágio da doença. Enfim, erramos!

Tive o primeiro sintoma na noite anterior a 05/06/2021, dia em que enfrentamos o Cânion do rio Tocantinzinho em Góias, aliás lugar de beleza indescritível. Como me coloquei em risco de contágio durante a viagem, decidi não fazer contato com minha namorada, filhas, meus familiares, enfim, com ninguém, até que entrasse no período em que a doença pudesse ser detectada com maior assertividade através do Swab. 

Na quarta-feira (09/06/2021) cumpria-se o prazo de detecção e infelizmente, havia sido infectado. 

Como o Coronavírus avançou em meu organismo?

No mesmo dia em que testei positivo, iniciei o tratamento seguindo orientações médicas e fiquei isolado em casa. A primeira tomografia trouxe pouco comprometimento e a indicação de que provavelmente tudo correria bem. Mas dois dias depois fui internado na Casa de Saúde de Itaocara-RJ, minha querida terra natal, localidade em que passei trabalhando de home office durante a pandemia. Dois dias internado em Itaocara e meu amigo e médico, sugere que deveria ser transferido para um hospital especializado no enfrentamento do Coronavírus, pois meu caso era grave.

Sim! Foi tudo muito rápido e sorrateiro, porque não senti nada que despertasse uma preocupação. A doença avançou sem me dar sinais.

Bem… como também não descartei nenhum cenário, inclusive o adverso, comecei a planejar uma transferência (descobri depois que já haviam feito isso por mim nos bastidores, rsrsrs), pensar quais seriam as minhas necessidades caso a coisa piorasse. Por experiência no acompanhamento direto da minha mãe e tio (falecido), eu sabia que o isolamento total dentro das instalações hospitalares era o protocolo e pouco contato poderia ser feito pelos familiares. Então eu não hesitei em buscar ajuda do meu amigo irmão e médico em Niterói-RJ que teria acesso ao meu leito.

Eu simplesmente joguei o problema no colo dele e disse:” Tô indo para aí e não me deixa morrer. Se vira!”

A UTI móvel atrasou 6h para chegar em Itaocara-RJ. Marcaram a transferência para 17h30 e chegaram às 22h30. Pra piorar, tem o fato de Itaocara-RJ ficar a 230 km de Niterói numa viagem que dura em média 4h. Pronto… um quadro grave que demoraria horas para chegar ao local especializado.

Cheguei no Hospital Icaraí em Niterói-RJ de madrugada com 50 incursões, apesar do suporte de 15l/min de oxigênio. Só depois da alta que tomei a real ciência que já cheguei a Niterói-RJ bem perto do óbito.

Uma tomografia com comprometimento estimado acima de 80% do pulmão, o imediato encaminhamento a UTI e o aviso que a situação atual indicava uma intubação. Antes mesmo de subir para UTI, já iniciava, o que reparei ter sido um grande diferencial no meu caso: o trabalho dos Fisioterapeutas!

Já no quarto da UTI, recebo a visita do meu médico amigo. Quebrando o protocolo médico da indiferença, ele conversa comigo de voz embargada e olhos avermelhados. Depois de algum tempo de papo descompromissado ele me pergunta:

Meu amigo médico: “Aqui, quer fazer um vídeo aí para galera? Faz aí um para suas filhas!”

Eu: “Nem pensar, não vou fazer vídeo nenhum não! Num vou morrer! Tá querendo que eu faça uma despedida!?”

Como venci a Covid?

Antes de tudo, queria agradecer e dar conhecimento a todos do trabalho memorável dos profissionais que me acolheram. Todos os profissionais de saúde e demais que atuaram no meu tratamento levaram muito mais que o trabalho, eles me encheram de carinho e afeto. Em todos os lugares que permaneci, me senti em casa. Isso foi primordial para minha recuperação.

Agora quero dar minha experiência pessoal, o que fiz que percebi ter ajudado no tratamento da Covid.

Eu já sabia que o fator emocional era importante na luta contra a Covid e, desde a descoberta da doença, me enchi de positividade e pensamentos em Deus. Procurei não me abater!

Já na transferência prestei muita atenção ao que minha namorada havia me dito: “Não pense mais em nada aqui fora! Aqui está tudo certo! Foca na sua recuperação!”

Apesar daquela comoção de pessoas na porta da Casa de Saúde (coisa de cidade do interior, em que todos se conhecem e se comovem, uma grande família), eu consegui conter os pensamentos negativos que a cena trazia, porque parecia cena de despedida, apesar de eles estarem ali para dar força! kkkkk.

Aliás, uma conclusão que cheguei depois é que não é uma coisa a se fazer com pacientes da Covid, rsrsrsr.

Dentro da UTI móvel eu iniciei o processo de esquecimento de tudo que poderia trazer alguma emoção, namorada, filhas, família, trabalho, projetos, enfim, amores ou problemas que pudessem me emocionar, desliguei por esse tempo. Passei a considerar só eu e os aparelhos de respiração.

Os três primeiros dias de UTI foram os que mais me exigiram concentração e foco. 

Sim amigos, eu precisava estar focado em conseguir fazer com que todo alto fluxo de oxigênio, gerado pelo aparelho, chegasse aos meus pulmões. Qualquer distração, um simples pensamento, eu já não conseguia conter o fluxo e grande parte do oxigênio ia para o estômago, o que gerava até vômitos. Os fisioterapeutas iam direto me avisar: melhora isso aí! ou siga assim, está dando certo! Eles foram extremamente importantes.

Não sou adepto a meditação, mas em momentos de insônia assistia uma série do Netflix de Mindfullness (Meditação), em que se ensinava técnicas de esvaziamento dos pensamentos e acompanhamento do processo pessoal de respiração. E assim foi feito. Resgatei o que vi e durante muitas horas fiquei só prestando a atenção no meu respirar! No primeiro dia acredito que fiquei 24h nesse processo, porque lembro que não dormi.

Depois dessas 24h, fui orientado pelos Fisios e médicos a ficar pronado (deitado de barriga para baixo), pois isso melhoraria ainda mais a oxigenação no pulmão e ajudaria na possibilidade de descarte da intubação.

Aí veio mais um drama, pois acompanhar o alto fluxo do aparelho pronado é ainda mais difícil, e o foco e a concentração passaram a não ser suficientes.

Depois de algumas horas na posição e com bastante ânsia de vômito por conta da entrada do ar no estômago, lembrei da amamentação. Como um bebê pode mamar e respirar ao mesmo tempo?

É isso mesmo, passei a colocar o dedo na boca e esse processo fez com que fechasse algo que permitia o ar ir para o estômago, e todo alto fluxo de oxigênio passou a ir para onde deveria:  o pulmão. Eu acabei dormindo pronado e a equipe que me monitorava no hospital disse que permaneci perto de 24h na posição.

Esses dois primeiros dias de luta intensa e muita ajuda das equipes que me acompanhavam foram primordiais, para que no terceiro dia, eu recebesse a notícia da baixa possibilidade de intubação. A partir dali eu ficara com níveis de infecção ainda muito alterados e rins muito comprometidos. Tive que permanecer mais 5 dias na UTI lutando contra esses outros fatores e ainda sob risco de vida.

Bem, depois da UTI, mais alguns dias no quarto e alta. Saí bem fraco, e dois lances de escada já me causavam forte desconforto respiratório.

Hoje, novembro de 2021, me encontro bem, ainda em tratamento, a cada dia me sentindo melhor e na certeza que em breve estarei completamente recuperado (tenho muita fé nisso).

O que essa experiência com Covid trouxe para mim?

Depois da alta, passei a tomar ciência da gravidade do meu estado e pude tirar muitas reflexões.

Duas coisas me vieram muito rápido e confirmaram pensamentos que já tenho há tempos:

Primeiro: somos muito frágeis, e que a vida pode ser interrompida a qualquer momento. Estava longe de ser público alvo da versão grave da doença. Tenho vida atlética, alimentação equilibrada e ótimo quadro geral de saúde, e ainda assim, quase fui.

Tenho convicções religiosas que me trazem tranquilidade quanto a morte e, sinceramente, não me preocupei com a possibilidade de morrer. Espero que não achem desdenho com a gravidade que passei, mas o fato de não ter tido medo de morrer me ajudou muito a me manter calmo.

Segundo: eu sempre me senti amado e tenho muitos amigos, mas errei muito ao subestimar o quanto sou amado e o quanto as pessoas iriam se solidarizar e me ajudar. Não irei citar nomes, mas tenho uma lista de anjos terrestres na minha vida!

Outros aprendizados que espero conseguir colocar em prática:

Família e amigos devem ser prioridade em nossa vida,

Valorizar mais o tempo perto de quem amamos,

Eu não sei o que quero da vida (e até gosto disso, a busca é prazerosa e nos leva a crescer!), mas sei muito do que eu não quero e devo colocar em prática a retirada do que não desejo.

Gratidão! Muito obrigado!

Nunca falei tanto obrigado na minha vida em um período tão curto, como o da internação. 

Externar a gratidão é uma coisa que sempre me preocupei. Então, se você leu esse artigo e me desejou vida! Muito obrigado, se ainda não te disse isso! Se já disse, agradeço mais uma, duas, três e quantas vezes forem possíveis! Porque serei eternamente grato a todo amor que me foi dispensado!

Agradeço a Deus pelo dom da fé e de não duvidar, que o estágio por aqui é temporário, e  que o bom é estar com Cristo que já pagou por tudo com sua morte na cruz. Eu creio nisso, por mais que pareça doido e acientífico! 

Fé é uma experiência pessoal e que não conseguirei explicar! Cristo me basta, o Espírito Santo habita em mim!

Agradeço a todos que me amaram nesse momento tão difícil. Família, amigos, colegas e muitos desconhecidos, isso mesmo, a solidariedade humana por vezes transpassa a barreira da proximidade. Recebi recados de afeto de muita gente, que mesmo sem me conhecer, me amou e se solidarizou com minha dor! O ser humano é tudo! Somos bons! Valemos muito a pena!

Queria realmente ter a capacidade de com palavras, descrever o quão sou GRATO por todo amor que recebi!

Encerro aqui meu relato, na certeza que ainda preciso agradecer muito, mas muito mais!

Saúde e Paz!

A utilidade é o que me move!

Forte abraço

Jefferson Figueiredo – CGA

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    Sou Gestor de ativos de Renda Fixa há 12 anos. O objetivo do Renda Fixa Prática é ajudar na compreensão sobre ativos de Renda Fixa.