A marcação a mercado é, ao mesmo tempo, uma dor e uma oportunidade para investidores do Tesouro Direto.
É uma dor porque expõe, no dia a dia, oscilações de preço que muitos associam equivocadamente a perdas definitivas, mesmo quando o título mantém sua capacidade de pagamento até o vencimento.
Mas também é uma oportunidade, porque essas mesmas oscilações criam janelas de entrada, reposicionamento e gestão de risco, para quem compreende como o risco de mercado atua sobre os preços.
Entender a marcação a mercado — e acompanhar métricas como duration, convexidade e impactos reais de preço — permite ao investidor de renda fixa deixar de reagir ao curto prazo e passar a ler o risco de forma estrutural, usando a volatilidade como informação, e não apenas como desconforto.
Quando se fala em Tesouro Direto, é comum associar os títulos públicos à ideia de investimentos seguros e previsiveis. Do ponto de vista de crédito, isso é verdadeiro. No entanto, do ponto de vista de preço, os títulos estão sujeitos ao risco de mercado, que se manifesta por meio da marcação a mercado.
Na prática, isso significa que os preços dos títulos do Tesouro Direto oscilam diariamente em função das variações nas taxas de juros (Risco de Juros). Mesmo sem qualquer mudança na qualidade do emissor, o investidor pode observar ganhos ou perdas temporárias simplesmente porque a taxa exigida pelo mercado mudou.
Este artigo tem como objetivo mostrar como acompanhar o risco de mercado no Tesouro Direto de forma estruturada, utilizando métricas como duration, convexidade, DV01 e impacto real de preço, sempre com base no recálculo efetivo dos preços, e não em estimativas teóricas.
Na análise de renda fixa, é comum que o foco fique concentrado na taxa de juros observada no dia. No entanto, quem acompanha o Tesouro Direto de forma mais técnica sabe que o principal risco não está apenas na taxa, mas no impacto que suas variações geram nos preços dos títulos.
Risco de taxa de juros é o risco de que o valor de mercado de um investimento em renda fixa oscile em função das variações nas taxas de juros da economia, antes do vencimento do título.
Na prática, quando as taxas de juros sobem, os preços dos títulos de renda fixa caem; quando as taxas caem, os preços sobem. Essa relação inversa é o que gera volatilidade mesmo em investimentos considerados conservadores, como o Tesouro Direto.
Vou apresentar uma abordagem prática para acompanhar o risco de juros nos títulos do Tesouro Direto, utilizando métricas como duration, convexidade, DV01 e impacto percentual de preço, sempre com base no recálculo efetivo dos preços, e não em estimativas teóricas.
A tabela apresentada — e que passará a ser divulgada semanalmente nas minhas análises — reúne títulos do Tesouro Selic, Prefixado, IPCA+, Renda+ e Educa+, permitindo uma visão estruturada do risco ao longo da curva de juros
Na renda fixa, o risco de taxa de juros é a principal forma de manifestação do risco de mercado.
Em termos conceituais:
Ou seja:
O risco de taxa de juros é risco de mercado na renda fixa — mas o risco de mercado pode vir também influenciado pelo risco de crédito ou de liquidez
Como essa relação funciona na prática
Os títulos de renda fixa são precificados pelo valor presente dos fluxos futuros, descontados por uma taxa de juros exigida pelo mercado. Quando essa taxa muda, o preço do título muda — mesmo que o emissor não tenha alterado nada.
Essa relação inversa entre taxa de juros e preço é o coração do risco de mercado na renda fixa.
Na renda fixa:
É por isso que títulos com taxa prefixada ou indexados à inflação (Tesouro Prefixado e IPCA+) apresentam maior volatilidade: eles carregam um componente de taxa efetiva que varia constantemente na curva de juros.
O risco de juros não é estático. Mesmo que as taxas aparentem estabilidade, o perfil de risco dos títulos do Tesouro Direto muda continuamente, seja:
Acompanhar essas métricas de forma recorrente permite:
Esse tipo de acompanhamento é especialmente relevante em títulos longos, como Tesouro IPCA+, Tesouro Renda+ e Tesouro Educa+, nos quais pequenas variações de juros produzem impactos significativos de preço.
A duration mede a sensibilidade do preço do título a variações na taxa de juros, refletindo o prazo médio financeiro dos seus fluxos de caixa.
No contexto da marcação a mercado, a duration ajudar a responder à pergunta:
Quanto pode ser o risco de mercado desse título?
Exemplos práticos:
Na prática, a duration é amplamente utilizada para:
A convexidade complementa a duration ao capturar a não linearidade entre preço e taxa de juros — um efeito que nasce diretamente da capitalização composta dos fluxos de caixa.
Enquanto a duration funciona como uma boa aproximação linear para pequenos deslocamentos da curva, a convexidade explica por que, em cenários mais intensos de abertura ou fechamento das taxas:
Em termos intuitivos:
quanto mais distante está o fluxo de caixa, maior é o impacto de pequenas variações na taxa, pois essa taxa é composta por muitos períodos até o vencimento.
Exemplos práticos no mercado brasileiro
Dois títulos com durations semelhantes podem reagir de forma muito diferente a um mesmo movimento da curva se um deles tiver convexidade maior.
Isso ocorre porque a capitalização composta amplifica, ao longo do tempo, a sensibilidade do preço aos juros.
Títulos do Tesouro Direto com fluxos concentrados no vencimento — como NTN-F, NTN-B ou prefixados longos sem cupons — tendem a apresentar convexidade mais elevada, já que todo o valor depende da taxa composta por muitos anos.
Já títulos com pagamentos periódicos (cupons) “quebram” o efeito dos juros compostos ao longo do tempo, reduzindo a convexidade e, portanto, a volatilidade do preço.
Implicação para risco de mercado
Em ambientes de maior volatilidade da curva de juros, comuns no Brasil, a convexidade deixa de ser um detalhe técnico e se torna uma peça-chave para entender o risco real de mercado:
Em suma, a convexidade é a expressão matemática do efeito dos juros compostos sobre o risco de preço — especialmente relevante em carteiras de renda fixa de médio e longo prazo.
Para tornar o risco de mercado ainda mais tangível, a tabela inclui as métricas:
Essas métricas respondem à pergunta mais objetiva da marcação a mercado:
Quanto eu perco, em reais e em percentual, se a taxa subir hoje?
Metodologia adotada
Os rótulos DV01 e Modified Duration são utilizados por convenção e uso consagrado no mercado, facilitando a leitura e a comparação entre títulos.
No entanto, é importante destacar que:
Dessa forma, os números refletem impactos reais da marcação a mercado, já incorporando prazo, fluxo de caixa e convexidade.
Observações: para reforçar, os rótulos Modified Duration e DV1 (Dollar Value of 0,1) são utilizados neste material exclusivamente por convenção e uso consagrado de mercado, facilitando a leitura e a comparação entre títulos.
Importante destacar que os resultados apresentados não decorrem de estimativas ou aproximações baseadas nessas métricas.
Tanto o Perda $ no dia (+0,1↑) quanto a Perda % no Dia (+0,1↑) são obtidos a partir do recálculo integral dos preços dos títulos, considerando uma elevação efetiva de 0,1 ponto percentual na taxa de juros (Ex: 10,00 para 10,10).
Dessa forma, os números refletem impactos reais de preço, já incorporando integralmente os efeitos de fluxo de caixa, prazo e convexidade.
É acompanhamaneto da marcação à mercado na prática.
No Tesouro Direto, a rentabilidade até o vencimento é apenas parte da história. No caminho, o investidor está exposto ao risco de mercado e à marcação a mercado, que podem gerar oscilações relevantes de preço.
O uso conjunto de duration, convexidade e impactos reais de preço permite acompanhar esse risco de forma objetiva e estruturada, indo além da taxa e aproximando a análise de renda fixa da prática de mercado.
Quando observadas isoladamente, essas métricas ajudam a entender o risco em um determinado dia.
Quando analisadas de forma recorrente, passam a cumprir um papel ainda mais relevante: monitorar a evolução do risco de mercado ao longo do tempo.
É com esse objetivo que pretendo divulgar semanalmente essa tabela nas minhas análises, utilizando os títulos do Tesouro Direto como base para uma leitura mais clara e consistente da marcação a mercado.
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