A Renda Fixa em Março de 2020!

Análise Completa sobre os ativos de Renda Fixa em março de 2020

Retorno e Risco dos Ativos de Renda Fixa em março de 2020.

Por que o Crédito Privado perdeu tanto em março 2020?

O intuito do Renda Fixa Prática é contribuir para o entendimento deste instrumento tão importante para economia nacional: Renda Fixa, fonte de financiamento e investimento.

O mês de março de 2020 foi muito particular e por isso merece nossa análise. Foi um mês em que destaco:

    • Aumento substancial na volatilidade (sim, Renda Fixa tem vol, afinal de contas ir até o vencimento é para poucos e desconsiderar saídas intermediárias não é prudente);
    • Forte queda nos preços dos ativos de Crédito Privado;
    • Ganhos na parte Curta da Curva e FORTES perdas na Longa.

Vamos começar analisando o que houve com os indicadores que considero serem mais relevantes para Renda Fixa.

Na parte final do artigo , meu colega Lisboa apresenta o resumo das principais notícias para Renda Fixa. Ali você entenderá o que causou toda essa alteração nos preços dos ativos. Então a leitura é obrigatória para quem deseja aprender!

Indicadores importantes para Renda Fixa março de 2020.

O mês de março de 2020 foi marcado pela forte piora nos indicadores de Risco, quedas nas Bolsas e forte apreciação do câmbio.

Nossa Curva de Juros mais curta apresentou fechamento, o que representa ganho para esses ativos de Renda Fixa.

A parte curta da Curva sofre, majoritariamente, influência da atuação do Banco Central em sua condução da política monetária. No período em questão, o mercado passou a projetar cortes maiores pelo COPOM que anteriormente estava precificado nas curvas, fazendo com que as taxas curtas reduzissem.

Os Juros mais longos sofreram com a piora nos riscos globais e por isso suas taxas subiram fortemente, logo, seus preços cairam bastante.

Quando a parte Curta da Curva de Juros Fecha e a Longa sobe acontece o ganho de inclinação. O mercado interpreta esse aumento de inclinação como um aumento (ou consequência) da aversão ao risco. Uma das indicações práticas sobre essa mudança na inclinação da curva é a seguinte: A queda de juros agora deverá ser compensada por um aumento no futuro!

Se deseja compreender melhor os indicadores que acompanho semanalmente acesse esse artigo em que explico cada índice.

Curvas de Juros do Tesouro Direto em Março de 2020.

Agora acabamos de observar as Curvas de Juros Nominais, formada pelos papéis do Tesouro Direto Prefixados e a Curva de Juros Reais, composta pelos ativos do Tesouro indexados ao IPCA.

A Curva do Tesouro Prefixado mostra claramente o ganho de inclinação que citei anteriormante. Só observar a Curva em 29/02/2020 e onde ela terminou em 30/03/2020. Queda nos mais Curtos e Alta nos mais Longos. O eixo X está em ordem crescente de prazos (Duration). Se quiser entender mais sobre Curva de Juros, leia esse meu artigo.

Retorno, Risco e %CDI em Março de 2019 do Tesouro Direto, Poupança, Ibovespa,IDA DI, IDA IPCA e CDI.

A tabela acima demonstra o nível de taxa em cada data base (30/03 e 28/02), as rentabilidades brutas do Tesouro Direto no período, em percentual do CDI e a Volatilidade 252 que é calculada pelo desvio padrão dos retornos diários (log linear) do período, multiplicando o resultado pela raiz quadrada de 252 (anualização do período, trata-se de uma padronização comum no mercado para facilitar a comparação dos ativos).

Tesouro IPCA Principal perdeu -22,10% no mês.

IDA-DI (carteira de debêntures) -4,87% a.m.

Além do Tesouro Direto sempre apresento os dados para o Dólar, Ibovespa e dois índices de Crédito Privados: os IDAs da Anbima.

Se desejar acompanhar comigo esses números semanalmente, assine minha mail list.

Gráfico de Retorno versus Risco Renda Fixa - Tesouro Direto até 31/03/2020, em 21 dias úteis.

Acima o Retorno em Y e o Risco em X para os 21 dias úteis até a data de 31/03/2020.

O panorama gráfico da relação Retorno e Risco do Tesouro Direto. Esse Gráfico também atualizo semanalmente. Acompanhe comigo.

Agora irei trazer uma visão de mais longo prazo para podermos enxergar o tamanho do impacto nos preços do Tesouro Direto e Índices de Crédito Privado acontecido em março de 2020.

São três sequências de Gráficos:

Rentabilidades acumuladas nos 12 meses: Tesouro Direto e Índices de Crédito Privado da Anbima.

O primeira sequência mostra as rentabilidades acumuladas desde 29/03/2019 (1 ano) e revela o tombo que março trouxe nos ganhos acumulados desses ativos.

O Tesouro IPCA Principal 45, que possui a duration mais longa entre os ativos ofertados pelo Tesouro Nacional, chegou a acumular rendimentos na ordem de -8,76% bruto num período de praticamente 1 ano, ou seja, chegou a devolver tudo e mais um tanto. Até o final do mês de março ele recuperou parte da perda e fechou com -0,17% no dia 31/03/20, o acumulado de 1 ano.

Nos Tesouros Prefixados o tombo foi menor e ainda recuperaram parte em março mesmo.

Lembre-se sempre que o impacto no preço é maior dada a variação na taxa, conforme a duration (duração) do título. A duration é uma medida do risco , em resumo, quanto maior a duration de um título, maior o seu nível de risco.

“A Duration ou Duração (DUR) representa a média do prazo a decorrer até o vencimento de um título, ponderada pelo valor presente de cada fluxo de caixa individual (cupons de juros) ao longo da vida do ativo.”

Duration é diferente de Vencimento nos papéis com fluxo intermediário. Exemplo: NTN-F ou Tesouro Prefixado com Juros Semestrais.

Nos títulos Zero Cupom ou Bullet (sem juros intermediário) . Duration = Vencimento. Exemplo: LTN ou Tesouro Prefixado.

Nossos títulos são expressos em dias úteis (ano 252).

Histórico de Volatilidades 21 dias úteis anualizada: Tesouro Direto e Índices de Crédito Privado da Anbima.

O segundo conjuto de Gráficos eu apresento séries históricas da Volatilidade anualizada de 21 dias úteis (aquela que expliquei mais acima) .

Reparem no forte aumento da Vol em março de 2020!

Histórico de Taxas de Compra do Tesouro Direto 12 meses e CDI.

Na terceira série de Gráficos demonstro as variações nas Taxas de Compra para o mesmo período dos demais Gráficos. Observem a forte alta nas Taxas!

Agora gostaria de destacar dois ativos.

O Tesouro IPCA Principal 45 que é o mais longo e mais arriscado ativo de Renda Fixa do Tesouro Direto e os IDAs que são ótimos proxies do mercado de Crédito Privados no Brasil.

Novamente a rentabilidade acumulada e vol histórica e aproveito para trazer as perdas acumuladas (drawdown)

Agora tudo de 3 anos até 31/03/2020, para termos uma visão de mais longo prazo.

Máxima Perda Acumulada no período ( Max Drawdown): trata-se de uma visão que evidencia a maior perda ocorrida, desde um ponto de máximo até um ponto de mínima em uma série histórica. Ou seja, mensura a maior queda de valor de um ativo, em porcentagem, entre um pico que ocorreu no passado e determinada data posterior. Daí já temos uma boa métrica de Risco de Mercado.

Tesouro IPCA Principal 45: Rentabilidade acumulada, Volatilidade 21 d.u. e Perdas Acumuladas desde março 2017.

O Tesouro IPCA Principal 45 tem duration igual a 9.176 dias úteis – 36 anos (31/03/20) chegou a atingir uma rendabilidade acumulada de -2,18% em 23/03/2020 e encerrou o mês de março com 12,37% acumulados. Entre o acúmulo máximo e o fim de março pode-se observar uma perda de -28,99% (observe o Gráfico vermelho do Drawdown).

A volatilidade de março 20 superou o fatídico maio de 2017 (Joesley Day)

Crédito Privado Anbima IDA-DI: Rentabilidade acumulada, Volatilidade 21 d.u. e Perdas Acumuladas desde março 2017.

Agora os mesmos Gráficos para o IDA- DI, índice de Debêntures indexadas ao CDI da Anbima.

Há quem encarava esse ativo como tranquilo, devido a baixa volatilidade de mercado, tomou dois sustos recentes. Um em novembro 2019 e outro agora bem mais forte em março de 2020.

O IDA-DI obteve uma rendabilidade acumulada máxima de 23,03%  em  23/03/2020, mas encerra março acumulando 16,98% (78,72% do CDI). Entre o acúmulo máximo e o fim de março pode-se observar uma perda de -4,92% (observe o Gráfico vermelho do Drawdown).

A volatilidade superou todos os períodos!

O que aconteceu com Crédito Privado em março de 2020?

Por que as debêntures perderam tanto?

  • Turbulência econômica causada pelo novo coronavírus;
  • Aumento do risco de crédito das empresas emissoras de títulos de dívidas;
  • Já fraca liquidez dos Privados ficou ainda pior com o estresse do mercado, paralisando o secundário de dívida.

A causa principal desta queda nos preços dos ativos Privados veio da fuga por liquidez que é normal acontecer em momentos de turbulência econômica. Investidor solicitou resgaste em Fundos de Crédito Privado que foram forçados a vender os papéis.

As perspectivas conjunturais ruins levam também ao aumento do risco de crédito das empresas emissoras. O mercado estava muito exposto em Crédito Privado e os fundos começaram a vender os papéis e como a liquidez é baixa, tornou a negociação muito difícil e pressionou os preços muito para baixo.

Uma análise bem interessante você encontra no Valor Investe.

Principais Notícias para o Mercado de Renda Fixa: março de 2020.

Contribuição: José Luis Gomes Lisboa CFP® Linkedin

O clima de pânico tomou conta dos mercados no mês de março, considerado o pior mês em muitos anos para os principais ativos. Um primeiro trimestre de recordes negativos: Dow Jones, Ibovespa e petróleo tiveram os piores primeiros três meses da história, ao passo que o dólar teve alta ante a moeda brasileira nesses três meses de 29,5%, a terceira pior de todo o plano Real implantado em 1994, perdendo apenas para o primeiro tri de 1999, ano da maxidesvalorização do real, quando o avanço da divisa americana foi de 42,76%, e para o terceiro tri de 2002 (36,9%), plena corrida eleitoral que levaria o então candidato Luiz Inácio Lula da Silva à presidência pela primeira vez.

A oficialização por parte da OMS de que o surto de coronavírus é uma pandemia foi agravada pela derrota que o governo sofreu no Congresso, após os parlamentares derrubarem um veto do presidente que custaria R$ 200 bilhões aos cofres públicos em 10 anos. O casamento de projeções de crescimento cada vez menores para o País com a piora fiscal não poderia ter sido mais devastador. O mercado ficou assustado com os enormes gastos do governo diante da crise para reforçar a área de saúde, garantir renda e empregos e evitar quebradeira de empresas.

A aversão ao risco em meio ao contínuo aumento de casos de coronavírus no mundo e às constantes preocupações com o efeito disso tudo sobre a economia global, as preocupações com o cenário fiscal, bem como a turbulência política gerada entre o presidente, a equipe técnica do Ministério da Saúde e os governadores, além das pesquisas mostrando queda na aprovação do governo, seguiram elevando o nível de inclinação na curva de juros.

Os juros futuros tiveram grande “overshooting”. O contrato DI com fechamento em janeiro de 2022 saiu de 4,22% em 4 de março, logo antes da eclosão mais aguda da crise da Covid-19, para um pico de 5,90% no dia 12, voltou a cair até 4,57% no dia 17, subiu de novo para 5,85% dia 20 e encerrou o mês em 4,11%. Num prazo mais longo, o DI com vencimento em janeiro de 2025 oscilou entre o dia 4 (5,79%), dia 12 (7,78%), dia 17 (6,72%), dia 23 (8,75%) e fechou o mês em 6,85%.

A curva encerrou março, quando a epidemia se espalhou pelo mundo e começou a matar no Brasil, fortemente inclinada, refletindo o aumento da perspectiva de maior afrouxamento monetário e, ao mesmo tempo, da aversão a ativos de risco. Em relação ao fim de fevereiro, o DI jan/21 teve queda de 73 pts, o DI jan/22 queda de 37 pts e nos vencimentos longos, ao contrário, aumento de prêmio de cerca de 106 pts no DI jan/27. O que explica o recuo relativamente mais forte do DI jan/21 é o seu prazo mais curto, o que o torna mais vinculado às decisões do Banco Central (BC) sobre a Selic.

Mas um volume sem precedentes de medidas emergenciais, fiscais e monetárias de governos e bancos centrais ao redor do mundo ajudou a trazer certo alívio ao mercado. 38 bancos centrais de todo o mundo cortaram juros numa tentativa de amenizar os impactos da pandemia do coronavírus sobre a demanda e a oferta globais. Com estas ações, o total de medidas na área de política monetária subiu para 62 apenas em março, algo nunca visto na história econômica mundial. Além de diminuir taxas, as autoridades monetárias também iniciaram uma injeção de trilhões de dólares na atividade global.

No Brasil, além da atuação coordenada do Banco Central e Tesouro com leilões cambiais e de títulos públicos, as expectativas de inflação muito baixas, sinais pessimistas sobre a atividade, a percepção de que a economia brasileira caminha para uma recessão, assim como o resto do mundo por causa dos impactos do coronavírus, contribuiram para começar a ajustar o mercado e manter a curva sob certo controle.

O BC mostrou todo seu esforço ao usar várias ferramentas para enfrentar os problemas de liquidez do mercado: swaps, dólar à vista, leilão de linha e operação compromissada em dólares em estratégia semelhante ao que já tinha tentado durante a crise financeira mundial de 2008.

Com fortes impactos sobre a atividade econômica, a pandemia do novo coronavírus levou o mercado a revisar suas projeções:

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Forte abraço

Jefferson Figueiredo – CGA

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    Sou Gestor de ativos de Renda Fixa há 12 anos. O objetivo do Renda Fixa Prática é ajudar na compreensão sobre ativos de Renda Fixa.